E com a tesoura a linha foi cortada.
A família chorava. Talvez por obrigação, talvez não. Uma morte merecida.
Uma linha tênue de dor, rancor, fora traçada. Tantas olheiras cravadas. Partiu sem levar posses ou qualquer coisa da qual pudesse ter orgulho. Não tinha coração.
O amor? Não encontrou.
Segurou-se a roldana; e então, percebeu o quão era tarde. Desonrou o pai, envergonhou a mãe. Descumpriu promessas.
Um espetáculo, um verdadeiro “show”. Tratou a todos como marionetes e com ninguém se importou. Fazia jus a seu sadismo. Quantos mais sofressem mais prazer obtinha.
- É crueldade, agir assim. Trate-os bem, não fizeram por merecer. – lhe diziam; e então, como criança, a todos desobedecia.
Agia sem pudor. Não era grande amante da vida. Reclamar tornou-se hábito e viver tornou-se insignificante. Não dera valor ao que tinha.
Determinou o curso da vida.
Seguiu com todos os seus desejos e não hesitou a novas descobertas. Brincou com tantos quantas são as estrelas no céu. Amargurou, satirizou, caluniou. Tornou secreto.
Teceu a linha.
Era criança tão diferente, tão justa, tão pequena. Seguiu seu curso, compartilhou pequenas alegrias, sorriu pequenos momentos. O quão doce era aquela pequena mulher...
Fez falta. Assim como faz falta a água no deserto. Era inevitável não sentir falta da menina que crescia a cada dia. O tempo passava.
- Oh, pequena Corine, não tens ideia de como é a vida. Tão nova que és Recife toda a teus pés. Que acompanhe os passos de sua família. Que esteja com o povo assim como estamos.
E assim nasceu, Corine, tão bela, tão frágil. De família importante, grandes dotes.
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29 dezembro 2012
Corine, a sublime.


22 dezembro 2011
Where's my mind?
Houve uma lacuna a ser preenchida. Algo oco, que outrora habitava aquele ser. O tempo passando vagarosamente em si, enquanto tudo ao redor corria de forma absurda. Nada convinha com uma vida normal. Compartilhar uma dor com o mundo era como viver fora dele. Nada fazia sentido, e decerto, não lhe parecia voltar a fazer. O que habitava este ser tão sombrio, depois de tanta amargura vivida? Havia algo de humano, em um lugar profundo, ao qual não conseguiam enxergar. E foi então, que o mesmo se questionou: Onde está a minha mente? E assim, decifrou todo o mistério. Aquele ser, ao qual se referia com tamanha indignação, ninguém mais era, além de si. Tudo o que lhe restara, habitava ali, em corpo, sem traços que o fizessem acreditar que algum dia, uma mente lhe tomasse todo o vazio.


Reencontro
Apenas mais uma chamada a ser atendida. Nada que pudesse mudar seu dia por um todo, ou de repente fazer-lhe feliz. Conversas com pessoas desconhecidas, tornando-se algo comum com certa frequência. Mas quem diria que um desconhecido poderia lhe informar sobre alguém que conhecesse? Ninguém fazia idéia do quanto esperava por este momento. Não parecia admirar-se ao não conhecer o local para onde partiria com rapidez, afinal, não era grande conhecedora de parte da cidade onde vivia. Apressou-se ao máximo. Chegara ao local, e mesmo sem saber por onde começar sua procura resolveu persistir. Adentrou receosa. Observou atentamente o recinto, e tirou suas conclusões.
– Pode me informar onde encontro Fredderick Altenburg? – questionou a alguém que lhe parecia ser a recepcionista. Esperou calmamente por uma resposta. Foi levada até uma porta à qual se recostou, esperando por maiores explicações.
– Seja rápida. – Nada mais lhe disseram. Apenas uma porta fora entreaberta para que pudesse seguir em frente. Entrou, e observou calmamente o local.
– Claire, há quanto tempo não a vejo.
– Fredderick? – Chocou-se imediatamente. Tubos e aparelhos aos quais desconhecia estavam ao redor do corpo de seu querido amigo. – O que fazes aqui?
– Não posso falar demais. Só venha aqui, e dê-me um abraço, por favor. – Andou em sua direção, e abraçou-o, com tamanha força que poderia quebrar-lhe alguma coisa. Sorriu para ele, um tanto envergonhada. – Sempre a considerei como uma filha. Não se esqueças de mim.
Ela cambaleou, em direção à porta, agora que podia notar a presença de uma enfermeira. Perguntou a ela o que havia acontecido a ele. Mas não obteve uma resposta. Uma sirene incomodativa soava. Empurraram-na para fora do quarto. Olhou por fora, todo o aglomerado de médicos a ajudar Fredderick. Virou as costas, e soube ali, que perdera mais uma vez seu pai.


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